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VIRTUAL / REAL - Jorge Pinheiro/Eduardo P.L.

6.4.12

EDUARDO - O SENHOR DOS VARAIS

Naquele tempo, os blogues não tinham cara. As caras não tinham rosto. Ninguém tinha face. Havia um anonimato implícito na blogoesfera, como se a virtualidade não tivesse nome. Reconhecer o Eduardo não foi fácil. Era Junho. Ano, o longínquo 2008. Foi em Lisboa. Já não me recordo como cheguei ao Varal de Ideias (o blogue do Eduardo). Cheguei num estendal atlântico. Fizemos uma ponte inter-continental. Ele estava em Lisboa. Houve uma empatia imediata. Traçámos planos na mesa do jantar. Surgiram blogues colectivos: Tertúlia Virtual; A Favor e Contra; Mobilling; Pé de Moça... Já nem sei! Sei que foi a primeira vez que encontrei alguém que era "apenas" virtual.
Estar na blogoesfera não é fácil. Há uma permanente exposição pública... voluntária. O Eduardo gosta de se expôr. Pela última contabilidade, ele tem 59 blogues e não vai ficar por aqui. Quem é o Eduardo? Seguramente uma pessoa complexa e multifacetada. Pintor, escultor, apaixonado pelas artes, apaixonado pela vida. Um homem, simultaneamente, ponderado e exuberante. Abrangente e teimoso. Seguro das suas ideias, certo dos seus propósitos. Não gosta de voltar atrás e de pedir desculpa. Somos o oposto. Eu estou sempre a voltar atrás e a pedir desculpa. Então porque ficámos amigos? Curioso nesta relação, é que há uma uma sensação de irmandade recíproca. Uma ligação de personalidades fortes e afirmativas que se respeitam e complementam. Algo que não se explica.
Em Janeiro de 2010 fui à Piacaba. Entrei por São Paulo. Fizemos depois o trajecto de carro até Santa Catarina. Um trajecto de dez horas que deu para muita conversa. A Piacaba é o paraíso do Eduardo. Uma casa fantástica, atelier de escultura, estúdio de pintura... Um Brasil diferente.  Choveu três dias seguidos. O Eduardo gosta mais de ouvir do que de falar. Tem opiniões precisas e "quase" inabaláveis. O seu atelier respira criatividade. Creio que há no Eduardo uma necessidade imperativa de agregação. E, no entanto, ele é muito exclusivo. São estas contradições que fazem as personalidades cativantes.
Uma casa no meio da mata. A praia ali tão perto. Esta é a Picaba. Foi em 2000 que Eduardo concretizou o sonho. Para um europeu, tudo é estranho nestas paragens. Há um espaço que custa a entender. Uma grandeza que se perde na imensidão do horizonte. Os turistas não são espanhóis, mas argentinos. Não há queijo da Serra e o bacalhau é uma miragem. Nem sempre entendemos o que nos dizem e temos de falar devagar para ter algum reconhecimento verbal. Mas, se não fosse assim, mais valia ficar em Lisboa. É uma sensação magnífica ouvir a nossa língua falada com vibração. Cantada com poesia. Entoada com as mil cores da mata atlântica.
Não sou de cerimónias. Andei pela casa toda. Fotografei tudo o que mexe. Este é o quarto do Eduardo. Às vezes ponho-me a pensar no gozo que deve ter dado planificar este sítio. Os planos que foram feitos. O prazer de ver a obra concretizada. Este é um quarto de sonho. Quem tem um quarto destes, tem de ser especial.
Estar por detrás de um grande homem quando se é uma grande mulher, não é fácil. Paulinha não está atrás. Está ao lado. Uma "paulista" convicta, Paula é uma personalidade cativante. Há encontros que estão pré-destinados. Este foi um deles. Eduardo é um homem de sorte.
Eduardo é o Senhor dos Varais e o Homem das Mil Caras. Com ele a blogoesfera nunca acabará. Tenho por ele uma profunda estima e um enorme carinho. Estranho, sinto um à vontade com ele que não sinto com muitos amigos "reais". Talvez haja entre nós uma ligação primordial.

2 comentários:

  1. Meu último feriado de sol do semestre e "eles" marcam um encontro virtual em tempo real.
    Na praia, sem nada conectável passo o fim de semana "descontaminada" da internet; modo primitivo, pré histórico de sair de casa.
    "O que será que tá rolando? Como que foi o encontro?"
    Acabo de chegar!
    Lá no face o Edu postou um link direto pra cá.
    Devoro o primeiro depoimento! O segundo...

    ...
    Meus olhos ficaram rasinhos, rasinhos... Alguém aqui perto passa, pergunta s/ o almoço,
    percebe minha cara digitando,
    olha e não entende nada.
    Arregala uns olhos querendo saber sem preguntar o que se passa com essa velha emotiva mamys... Coisa de velha babona.
    É isso; tô babando mais uma vez aqui!

    Vocês dois são uma delícia!
    beijos

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  2. Muito "saboroso" realizar e trazer o virtual para o real. Ao menos foi assim com essa gente, que fiz parte.
    bjks

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